AMAR O PRÓXIMO COMO A TI MESMO

O que significa “como a ti mesmo”?

Amar o próximo “como a ti mesmo” não significa satisfazer todos os nossos desejos. Afinal, nem tudo aquilo que desejamos contribui para o nosso próprio bem. Amar a si mesmo, em sentido moral, significa reconhecer o próprio valor, cuidar de si, buscar aquilo que favorece nosso desenvolvimento e evitar aquilo que nos prejudica e nos aprisiona.

Assim, o ensinamento de Jesus pode ser compreendido como:

“Trate o outro com o mesmo respeito, cuidado e consideração que você gostaria de receber.”

Mas, para isso, é necessário primeiro conhecer a si mesmo.

Quando não compreendemos nossas próprias necessidades, limitações, medos, desejos e imperfeições, podemos ter dificuldade para compreender também o outro. O autoconhecimento nos permite reconhecer nossas tendências, identificar os vícios que nos prejudicam e perceber os comportamentos que dificultam nosso progresso moral.

Por isso, conhecer e combater nossas imperfeições é parte fundamental do processo de transformação. Ao mesmo tempo, precisamos desenvolver as virtudes que nos ajudam a substituir comportamentos nocivos por maneiras mais conscientes e equilibradas de pensar, escolher e agir.

O autoconhecimento nos leva a uma constatação fundamental:

Eu também erro. Tenho fragilidades. Desejo ser respeitado, quero ser compreendido e, em determinados momentos, também preciso de ajuda.

Quando reconhecemos isso em nós mesmos, torna-se mais fácil perceber que o outro também possui suas fragilidades e necessidades.

Começamos, então, a olhar para além dos nossos próprios interesses. Antes de tomar uma decisão, passamos a considerar também como nossas escolhas podem afetar as outras pessoas.

Amar o outro

Para amar verdadeiramente o próximo, é necessário desenvolver virtudes.

Podemos afirmar que amamos alguém e, ainda assim, agir com egoísmo, injustiça, arrogância ou irresponsabilidade. Por isso, o amor não deve permanecer apenas no campo dos sentimentos ou das intenções. Ele precisa manifestar-se em nossas atitudes.

Amar o próximo é transformar uma disposição interior em uma maneira de pensar, escolher e agir.

É procurar fazer ao outro todo o bem que gostaríamos de receber, respeitando sua dignidade e reconhecendo que seu valor não depende daquilo que ele pode fazer por nós.

Eu trato bem o outro não porque espero algo em troca, mas porque reconheço nele um ser humano que possui valor próprio.

Essa compreensão também nos ajuda a perceber que amar não significa concordar com tudo.

Amar o próximo não significa aceitar todos os seus comportamentos, concordar com todas as suas ideias ou permitir que ele nos faça mal. Podemos discordar, estabelecer limites, impedir uma injustiça e buscar reparação sem transformar a oposição em ódio ou desejo de vingança.

O amor ao próximo não elimina a justiça. Transforma a maneira como exercemos a justiça.

Quando começamos a considerar o bem do outro em nossas decisões, algo também se transforma dentro de nós. Desenvolvemos empatia, paciência, compreensão, tolerância e disposição para ajudar.

Percebemos, então, que o outro sofre, possui necessidades, comete erros, enfrenta dificuldades, busca segurança, quer respeito e reconhecimento, assim como nós. O outro também deseja ser feliz.

É nesse reconhecimento da humanidade compartilhada que o ensinamento de Jesus começa a deixar de ser apenas uma frase e passa a se transformar em uma prática de desenvolvimento moral.

“Amar o próximo como a ti mesmo” significa reconhecer no outro um ser semelhante a nós, sujeito às mesmas necessidades, limitações e possibilidades de crescimento. Esse amor deve transformar-se em benevolência, indulgência, perdão, respeito, justiça e auxílio, abrangendo todas as relações humanas e não apenas a assistência material. Ao combater o egoísmo e aprender a considerar o bem do outro em nossas escolhas, desenvolvemos as virtudes e avançamos no processo de evolução moral.

A frase de Jesus e a sua relação com o princípio da atração, da união e do amor consciente segundo São Vicente de Paulo

Se observarmos a natureza, perceberemos que existe uma tendência à união. Os elementos da matéria se relacionam e permanecem unidos por meio das forças que atuam sobre eles. Na linguagem filosófica espiritual, essa atração pode ser compreendida como uma manifestação do princípio de união presente na criação.

Nos seres vivos, esse princípio ganha uma nova dimensão. Além das forças físicas que os mantêm ligados à vida, surgem os vínculos, os afetos e os sentimentos.

No ser humano, porém, ocorre algo ainda mais elevado: ele possui consciência e liberdade para escolher como se relacionar com os outros.

É nesse ponto que a atração pode transformar-se em amor.

O amor consciente não é apenas sentir afeição por alguém. É reconhecer no outro um ser que também possui necessidades, sentimentos, dignidade e direito à felicidade. É desejar o bem e agir para promovê-lo.

Assim, podemos compreender uma possível trajetória da evolução:

Na matéria, a atração une.
Na vida, os vínculos aproximam.
Na consciência, o amor une por escolha.

É nesse sentido que podemos compreender a profunda afirmação atribuída a São Vicente de Paulo quando explica a frase:

“Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei.”

Talvez a evolução moral do ser humano consista justamente em transformar uma união que inicialmente acontece por necessidade ou instinto em uma união realizada de forma consciente, livre e amorosa.

Quando o homem aprende a compreender o outro, respeitá-lo e desejar sinceramente o seu bem, ele deixa de apenas existir ao lado dos outros e começa verdadeiramente a viver em fraternidade.

O homem que vivencia as virtudes em sua plenitude caminha em direção à verdadeira sabedoria. No homem sábio, o amor deixa de ser apenas um impulso instintivo e passa a ser uma escolha consciente, compreendida e praticada.

Então ele finalmente começa a compreender, em sua essência, uma das mais profundas leis divinas:

“Amar o próximo como a ti mesmo”

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