
Explicando a oração Pai Nosso
Crédito: Livro Boa Nova | Chico Xavier | FEB
“Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome”
E, ponderando que a redenção da criatura nunca poderá efetuar-se sem a misericórdia do Criador, considerada a imensa bagagem das imperfeições humanas, continuou:
“Venha a nós o teu Reino.”
Dando a entender que a vontade de Deus, amorosa e justa, deve cumprir-se em todas as circunstâncias, acrescentou:
“Seja feita a tua vontade, assim na Terra como nos céus.”
Esclarecendo que todas as possibilidades de saúde, trabalho e experiência chegam invariavelmente, para os homens, da fonte sagrada da proteção divina, prosseguiu:
“O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje.”
Mostrando que as criaturas estão sempre sob a ação da lei de compensações e que cada uma precisa se desvencilhar das penosas algemas do passado obscuro pela exemplificação sublime do amor, acentuou:
“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”
Conhecedor, porém, das fragilidades humanas, para estabelecer o princípio da luta eterna dos cristãos contra o mal, terminou a sua oração, dizendo com infinita simplicidade:
“Não nos deixes cair em tentação e livra-nos de todo mal, porque teus são o Reino, o poder e glória para sempre. Assim seja.”
Comentários para aprofundar o sentido da oração
O Pai-Nosso pode ser compreendido como um roteiro de transformação moral: Uma oração que aproxima o ser humano de Deus ao mesmo tempo em que o conduz ao autoconhecimento, à responsabilidade, ao domínio de suas escolhas, ao perdão e à prática do bem.
“Pai nosso”
Há uma palavra que merece atenção especial: “nosso”.
Jesus não ensinou a dizer simplesmente “Meu Pai”, mas “Pai nosso”.
Essa pequena palavra amplia completamente o sentido da oração.
Ela nos coloca diante da ideia de que nossa relação com Deus não pode ser separada da relação com os demais seres humanos. Se Deus é Pai de todos, então o outro deixa de ser apenas um estranho, um adversário ou alguém indiferente à nossa existência.
O “Pai nosso” conduz naturalmente à fraternidade.
Assim, antes mesmo de pedir qualquer coisa, a oração nos convida a reconhecer que não estamos sozinhos e que nossa evolução está ligada à convivência com os outros.
O ser humano não se desenvolve isoladamente. A vida em sociedade exige respeito, responsabilidade, justiça, cooperação e reconhecimento da dignidade do outro.
“Que estás nos céus”
“Céus” não precisa ser compreendido apenas como um lugar físico situado acima de nós.
Pode representar uma realidade que transcende a existência material e, ao mesmo tempo, um estado de maior aproximação daquilo que é justo, verdadeiro e bom.
“Santificado seja o teu nome”
Santificar o nome de Deus não significa apenas pronunciá-lo com respeito.
Existe uma consequência muito mais profunda:
Se afirmamos acreditar em Deus, nossa maneira de viver deveria refletir aquilo que dizemos acreditar.
Nossa conduta passa a ser uma espécie de testemunho daquilo que professamos.
Não basta dizer que Deus é amor e continuar alimentando o ódio.
Não basta pedir justiça e agir injustamente.
Não basta pedir perdão e negar perdão.
Não basta pedir caridade e permanecer indiferente diante das necessidades dos outros.
A santificação do nome de Deus pode, portanto, ser compreendida como um convite para honrar aquilo em que acreditamos por meio de nossas próprias ações.
“Venha a nós o teu Reino”
Aqui encontramos uma das ideias mais importantes da oração.
O Reino precisa “vir” até nós.
Mas como?
Não apenas esperando que alguma realidade externa transforme o mundo, mas participando dessa transformação.
O Reino começa quando o ser humano passa a viver de acordo com leis morais superiores.
Quando escolhe a justiça em vez da vantagem pessoal.
Quando escolhe o perdão em vez da vingança.
Quando escolhe a caridade em vez da indiferença.
O Reino que pedimos na oração precisa começar pelo reino que construímos dentro de nós.
“Seja feita a tua vontade, assim na Terra como nos céus”
Essa frase pode ser mal compreendida se for interpretada como uma aceitação passiva de tudo o que acontece.
Não significa abandonar a responsabilidade pessoal e simplesmente dizer:
“Tudo é vontade de Deus, portanto nada depende de mim.”
Pelo contrário.
Fazer a vontade divina está relacionado a observar as leis morais e utilizar corretamente a liberdade de escolha. O ser humano possui razão e liberdade justamente para escolher entre diferentes caminhos e assumir responsabilidade por suas ações.
Assim, aceitar a vontade de Deus não significa deixar de agir.
Significa agir procurando harmonizar nossa vontade com aquilo que reconhecemos como justo, bom e verdadeiro.
É uma mudança importante:
Não pedir apenas que Deus faça a nossa vontade, mas aprender a orientar a nossa vontade segundo o bem.
“O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”
O pão representa, naturalmente, as necessidades básicas da existência.
Alimento, saúde, trabalho, abrigo, segurança e recursos necessários à vida.
O ser humano necessita também de alimento espiritual para o desenvolvimento do espírito.
Isso nos conduz a outra reflexão: Pedir o pão não significa pedir apenas para receber.
Também significa pedir condições para trabalhar, aprender, produzir, compartilhar e utilizar corretamente aquilo que recebemos.
E a palavra “hoje” é igualmente significativa.
Ela nos traz para o presente.
Não estamos pedindo o alimento de toda a existência de uma só vez.
Pedimos o necessário para o dia.
Existe aí uma lição sobre confiança, simplicidade, gratidão e moderação.
“Perdoa-nos as nossas dívidas”
A palavra “dívidas” possui um sentido moral profundo.
Na tradição bíblica, ela pode representar as faltas ou ofensas. A própria tradução varia entre “dívidas”, “pecados” e “ofensas” em diferentes versões.
Essa ideia está relacionada à responsabilidade pelas próprias escolhas: nossas ações possuem consequências e o crescimento moral envolve reconhecer os próprios erros e trabalhar para repará-los.
Mas existe algo ainda mais importante: O pedido de perdão está imediatamente ligado ao nosso compromisso de perdoar.
Não dizemos apenas:
“Perdoa-nos.”
Dizemos:
“Assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”
Ou seja, a oração coloca nossa própria conduta como parte do pedido.
É quase como se disséssemos:
“Ensina-me a receber a misericórdia que também sou capaz de oferecer.”
“Assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
Talvez esta seja uma das partes mais exigentes do Pai-Nosso.
Porque podemos pedir muitas coisas a Deus.
Mas aqui somos convidados a olhar para nós mesmos.
A oração deixa de ser apenas um pedido e transforma-se em um exercício de autoconhecimento.
Eu quero ser perdoado.
Mas:
Eu consigo perdoar?
Quero compreensão para minhas imperfeições.
Mas:
Tenho compreensão pelas imperfeições dos outros?
Quero que Deus tenha paciência comigo.
Mas:
Tenho paciência com aqueles que convivem comigo?
Esse princípio possui uma profunda dimensão filosófica porque transforma a oração em um exercício de coerência moral.
Não basta desejar determinada virtude.
É preciso praticá-la.
“Não nos deixes cair em tentação”
Aqui aparece uma das questões mais importantes do desenvolvimento moral:
O mal nem sempre aparece diante de nós como algo claramente ruim.
Muitas vezes ele se apresenta como uma pequena concessão.
Uma pequena mentira.
Uma pequena vingança.
Um pouco de orgulho.
Uma justificativa.
Uma vantagem aparentemente inocente.
Uma resposta agressiva.
Uma oportunidade de prejudicar alguém sem sermos descobertos.
Por isso, pedir para não cair em tentação pode ser compreendido como pedir força para reconhecer nossas próprias fragilidades e governar nossas escolhas.
“Livra-nos de todo mal”
Podemos interpretar o mal em diferentes dimensões.
Existe o mal que recebemos.
Existe o mal que causamos.
E existe o mal que permitimos crescer dentro de nós.
Podemos pedir proteção contra acontecimentos que não controlamos.
Mas também precisamos pedir força para não nos tornarmos agentes do sofrimento de outras pessoas.
Isso transforma a oração em uma pergunta de responsabilidade:
“De que mal preciso ser protegido e de que mal preciso aprender a me libertar?”
Talvez essa segunda parte seja ainda mais importante.
Porque não basta pedir:
“Livra-me do mal.”
Também precisamos trabalhar para que o mal não encontre espaço em nossas próprias escolhas.
“Porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre”
A oração termina devolvendo a Deus aquilo que é de Deus.
Depois de pedir alimento, perdão e proteção, o ser humano reconhece que não é o centro absoluto da existência.
Essa conclusão possui uma importante dimensão de humildade.
Reconhecemos nossos limites.
Reconhecemos nossa dependência.
Reconhecemos que não compreendemos tudo.
E, ao mesmo tempo, assumimos a responsabilidade pelo que está ao nosso alcance.
