
- CARIDADE: O AMOR TRANSFORMADO EM AÇÃO
- Doação material não é sinônimo de caridade
- Caridade voluntária: Quando fazer o bem se torna uma escolha
- A caridade começa antes mesmo de sairmos de casa
- Caridade dentro da família
- Caridade no trabalho
- Caridade com os recursos que utilizamos
- Caridade no consumo dos alimentos
- Caridade com os animais
- Caridade nas relações sociais
- Caridade com quem pensa diferente
- Caridade e perdão
- Como as sete virtudes conduzem à caridade
- A caridade como expressão da evolução moral
CARIDADE: O AMOR TRANSFORMADO EM AÇÃO
Quando as virtudes deixam de ser apenas conceitos e passam a orientar nossas escolhas, a caridade deixa de ser uma ação ocasional e se transforma em um modo de vida.
A palavra caridade vem do latim caritas, relacionada àquilo que é querido, precioso e digno de apreço. Na tradição cristã, o termo passou a expressar o amor ao próximo e, com o tempo, tornou-se uma das principais palavras para designar o amor orientado ao bem.
Mas o que realmente significa ser caridoso?
Ser caridoso é apenas doar dinheiro?
É ajudar alguém que está passando necessidade?
É participar de uma campanha de arrecadação?
Ou a caridade pode estar presente também nas pequenas atitudes que realizamos todos os dias?
A proposta deste artigo é ampliar essa compreensão.
A caridade não começa necessariamente quando abrimos a carteira. Ela começa quando abrimos espaço dentro de nós para considerar o bem do outro.
Por isso, podemos encontrar manifestações de caridade em praticamente todos os momentos da existência: ao acordar, dentro de casa, no trabalho, no trânsito, ao utilizar os recursos da natureza, ao lidar com animais, ao consumir alimentos, ao conversar com outras pessoas e, principalmente, na maneira como tratamos aqueles que convivem conosco.
A doação material é uma das formas de ajudar. A caridade, porém, é muito maior do que a doação.
Jesus colocou a caridade como condição absoluta da felicidade futura por uma razão muito importante: é porque nela está contida todas as outras virtude.
Isso nos conduz a uma importante reflexão: A verdadeira caridade seria, então, a expressão daquele que consegue integrar e vivenciar as virtudes em sua maneira de pensar, escolher e agir.
Doação material não é sinônimo de caridade
Uma pessoa pode doar dinheiro, roupas, alimentos ou outros bens e, ainda assim, realizar essa ação por diferentes motivos.
Pode fazê-lo por:
- Compaixão;
- Solidariedade;
- Obrigação;
- Pressão social;
- Desejo de reconhecimento;
- Culpa;
- Interesse pessoal;
- Ou sincero desejo de ajudar.
Por isso, o valor material da doação não determina, sozinho, o valor moral do gesto.
Paulo apresenta uma ideia extraordinariamente importante em Coríntios XIII v. 1 a 7 e 13. Ele chega a afirmar que uma pessoa poderia distribuir seus bens aos pobres e, mesmo assim, sua ação perderia seu significado se não estivesse acompanhada pelo amor.
Isso permite uma distinção fundamental:
Doação é aquilo que entregamos.
Caridade é a intenção de fazer o bem que orienta aquilo que fazemos.
Assim, uma pessoa pode praticar caridade sem realizar uma grande doação financeira.
Pode ouvir alguém.
Pode perdoar.
Pode ensinar.
Pode respeitar.
Pode cuidar.
Pode evitar causar sofrimento.
Pode oferecer seu tempo.
Pode fazer seu trabalho com responsabilidade.
Pode tratar um animal com cuidado.
Pode utilizar os recursos naturais sem desperdício.
Pode simplesmente deixar o dia de outra pessoa um pouco melhor.
Caridade voluntária: Quando fazer o bem se torna uma escolha
A caridade voluntária acontece quando a pessoa percebe uma necessidade e decide contribuir para o bem sem precisar ser obrigada.
Por exemplo:
Uma pessoa percebe que um colega está com dificuldade para realizar determinada tarefa. Em vez de pensar apenas em seus próprios interesses, oferece ajuda.
Outra percebe que alguém está emocionalmente abalado e, em vez de fazer julgamentos, escuta.
Outra separa parte de seus recursos para auxiliar uma instituição.
Outra ensina gratuitamente aquilo que sabe.
Outra visita uma pessoa idosa que vive sozinha.
Outra cuida de um animal abandonado.
Todas essas atitudes possuem algo em comum:
O bem do outro entrou no campo de suas próprias preocupações.
É aí que a caridade começa a ultrapassar o simples ato de dar.
A caridade começa antes mesmo de sairmos de casa
A caridade não precisa esperar uma grande oportunidade.
Ao acordar, podemos começar o dia pensando:
“O que posso fazer hoje para tornar a vida de alguém um pouco melhor?”
É uma pequena mudança de perspectiva.
Em vez de começar o dia pensando apenas:
“O que eu quero receber da vida hoje?”
podemos acrescentar:
“O que posso oferecer?”
Caridade dentro da família
A família é talvez um dos lugares mais difíceis — e mais importantes — para praticar caridade.
É relativamente fácil ser gentil com alguém que acabamos de conhecer.
Mais difícil é manter a paciência com quem convive conosco todos os dias.
A caridade dentro da família pode aparecer quando:
- Ouvimos antes de responder;
- Evitamos palavras desnecessariamente agressivas;
- Ajudamos nas tarefas domésticas;
- Respeitamos o espaço do outro;
- Reconhecemos nossos erros;
- Pedimos desculpas;
- Perdoamos;
- Cuidamos de alguém que está doente;
- Temos paciência com crianças e idosos;
- Não utilizamos as fragilidades de alguém contra essa pessoa;
- Oferecemos ajuda sem esperar recompensa.
E há uma questão importante:
Se somos caridosos com desconhecidos, mas constantemente agressivos com aqueles que vivem conosco, até que ponto compreendemos realmente a caridade?
Caridade no trabalho
O ambiente profissional também pode ser um campo de desenvolvimento moral.
Podemos praticar caridade quando:
- Ensinamos um colega;
- Compartilhamos conhecimento;
- Reconhecemos o trabalho de outra pessoa;
- Não prejudicamos deliberadamente alguém;
- Cumprimos aquilo que prometemos;
- Utilizamos corretamente os equipamentos;
- Evitamos desperdícios;
- Tratamos funcionários, clientes e fornecedores com respeito;
- Não humilhamos quem ocupa uma posição inferior;
- Damos crédito a quem realmente realizou o trabalho;
- Ajudamos alguém sem transformar a ajuda em instrumento de humilhação.
A caridade não significa deixar de cobrar responsabilidade ou aceitar injustiças.
Aqui a caridade se conecta diretamente à Justiça, conhecimento, humildade, beneficência.
Caridade com os recursos que utilizamos
Quando utilizamos um equipamento, uma ferramenta, um veículo, um computador ou qualquer recurso que pertence a outras pessoas ou à coletividade, podemos perguntar:
Estou utilizando aquilo que recebi como se não tivesse responsabilidade sobre isso?
Cuidar adequadamente dos recursos é uma forma indireta de caridade.
Porque o desperdício também produz consequências para outras pessoas.
Exemplos:
- Desligar equipamentos que não estão sendo utilizados;
- Evitar desperdício de água;
- Utilizar corretamente materiais de trabalho;
- Conservar equipamentos coletivos;
- Não danificar deliberadamente aquilo que pertence a outra pessoa;
- Reutilizar materiais quando possível;
- Evitar consumo desnecessário.
A pessoa caridosa não pensa apenas:
“É meu.”
Ela também aprende a pensar:
“Que impacto minha utilização desse recurso produz sobre os outros?”
Caridade no consumo dos alimentos
A comida também pode ser observada sob a perspectiva da caridade.
Antes de chegar ao nosso prato, um alimento passou por uma longa cadeia de trabalho: Natureza, produção, trabalhadores, transporte, comércio, preparação e consumo.
Reconhecer isso é muito importante.
A caridade, nesse caso, pode aparecer em atitudes simples:
- Evitar colocar no prato mais comida do que conseguiremos consumir;
- Evitar desperdício;
- Conservar adequadamente os alimentos;
- Compartilhar quando alguém necessita;
- Valorizar o trabalho de quem produz;
- Escolher o consumo de maneira consciente;
- Aproveitar melhor os alimentos.
Isso não significa transformar cada escolha alimentar em uma questão moral absoluta. A ideia é simplesmente desenvolver consciência sobre as consequências de nossos hábitos.
Caridade com os animais
Se entendermos caridade como uma disposição para promover o bem e evitar sofrimento desnecessário, ela não precisa ficar limitada às relações humanas.
Podemos praticá-la ao:
- Alimentar um animal em situação de necessidade;
- Oferecer água;
- Cuidar adequadamente de um animal doméstico;
- Não abandonar animais;
- Evitar maus-tratos;
- Respeitar a vida animal;
- Não provocar sofrimento por diversão;
- Procurar atendimento quando um animal sob nossa responsabilidade estiver doente;
- Respeitar animais silvestres e seus ambientes.
A humildade nos lembra que não somos os únicos seres que possuem interesse em viver e evitar sofrimento.
Caridade nas relações sociais
Podemos praticar a caridade na maneira como tratamos as pessoas:
- Cumprimentando;
- Agradecendo;
- Pedindo licença;
- Pedindo desculpas;
- Ouvindo;
- Respeitando opiniões diferentes;
- Evitando fofocas;
- Não espalhando informações que possam prejudicar alguém;
- Ajudando uma pessoa perdida;
- Cedendo espaço quando necessário;
- Sendo pacientes com quem está aprendendo;
- Tratando com dignidade quem nos presta um serviço.
Uma palavra respeitosa pode parecer pequena para quem a pronuncia.
Mas pode ser muito importante para quem a recebe.
Caridade com quem pensa diferente
Talvez aqui esteja uma das formas mais difíceis de caridade.
É relativamente fácil demonstrar bondade para quem pensa como nós.
A dificuldade começa quando encontramos alguém com valores, opiniões ou comportamentos diferentes.
A caridade não exige concordância com tudo.
Ela exige que a divergência não elimine a dignidade do outro.
Isso envolve:
Humildade para ouvir
Coragem para discordar sem agredir
Conhecimento para argumentar
Altruísmo para considerar o outro.
Caridade e perdão
Na tradição cristã e espírita, o perdão ocupa lugar importante na compreensão da caridade.
Perdoar não significa necessariamente:
- Aprovar o erro;
- Esquecer o ocorrido;
- Permitir novos abusos;
- Abandonar limites;
- Deixar de buscar justiça.
Perdoar pode significar deixar de alimentar deliberadamente o desejo de vingança e o ressentimento.
Isso exige coragem e perseverança.
Por isso, o perdão pode ser entendido como uma das manifestações mais difíceis da caridade.
Como as sete virtudes conduzem à caridade
| Virtude | Como prepara para a caridade |
| Conhecimento | Ensina a compreender as necessidades e consequências de nossas ações. |
| Humildade | Permite reconhecer que também precisamos dos outros. |
| Altruísmo | Faz o bem do outro entrar em nossas decisões. |
| Coragem | Permite fazer o bem mesmo quando existe dificuldade ou sacrifício. |
| Perseverança | Mantém a prática do bem quando o entusiasmo desaparece. |
| Beneficência | Transforma a disposição de fazer o bem em atitudes concretas. |
| Caridade | Integra essas virtudes no relacionamento com o próximo. |
A beneficência é a disposição de fazer o bem. A caridade é essa disposição transformada em relação, cuidado e ação concreta.
A caridade como expressão da evolução moral
Se o conhecimento nos permite compreender, a humildade nos permite reconhecer, o altruísmo nos permite considerar o outro, a coragem nos permite agir, a perseverança nos permite continuar e a beneficência nos impulsiona a fazer o bem, a caridade representa a concretização desse processo na vida cotidiana.
Ela transforma valores em relações.
Transforma ideias em atitudes.
Transforma atitudes em hábitos.
E transforma hábitos em caráter.
Talvez seja justamente por isso que São Paulo (Coríntios XIII v. 1 a 7 e 13) tenha afirmado que, entre a fé, a esperança e a caridade, a maior é a caridade.
Não porque a fé e a esperança sejam desnecessárias, mas porque a caridade representa o amor que se manifesta, se relaciona, serve e transforma.
E, quando esse comportamento deixa de ser exceção e passa a fazer parte da nossa maneira de viver, algo começa a mudar dentro de nós.
Conhecer o bem é importante.
Escolher o bem é necessário.
Fazer o bem é transformação.
Repetir o bem é evolução.
E viver o bem é caridade.



