O PAPAGAIO DESATUALIZADO

Conta-se que, em uma época muito distante, existia um templo famoso por possuir um poder extraordinário:

Se uma oferenda fosse aceita, aquele que a tivesse feito poderia escolher um segredo para ser revelado.

A fama do templo espalhou-se por toda parte, e peregrinos começaram a chegar de lugares cada vez mais distantes.

Afinal, quem não gostaria de conhecer um segredo?

Havia, porém, uma regra.

A oferenda aceita pelo templo deveria ser feita com sementes de girassol, colocadas na embalagem correta e na quantidade exata.

Se todas as condições fossem cumpridas, o peregrino teria direito à revelação de um segredo.

O problema era que os girassóis só floresciam em uma região muito distante. Por isso, conseguir as sementes exigia uma longa viagem.

Com o passar do tempo, os peregrinos começaram a interpretar a expressão “quantidade exata” de uma maneira bastante conveniente.

Para eles, quantidade exata significava:

Quanto mais, melhor.

E, naturalmente, quanto maior a quantidade de sementes, maior precisava ser a caixa.

Foi assim que surgiu um curioso comércio nas proximidades do templo.

A caixa certa

Quando os peregrinos chegavam ao templo carregando suas enormes caixas de sementes, uma voz misteriosa ecoava:

— Tá desatualizado!

Os peregrinos paravam imediatamente.

Olharam para um lado.

Olharam para o outro.

Nada.

Apenas uma grande árvore fazia sombra sobre o caminho.

Como eram pessoas supersticiosas, alguns começaram a imaginar que a voz vinha do mundo espiritual.

— Será um espírito?

— É um aviso dos deuses?

— Ou será que fizemos alguma coisa errada?

Mas, ao lado da árvore, havia uma pequena loja de bugigangas.

De trás do balcão, aparecia então um vendedor.

— Não se assustem — dizia ele. — O problema é que essa caixa está desatualizada.

— Desatualizada?

— Sim. A oferenda precisa ser feita em uma caixa menor.

E o vendedor, muito prestativo, oferecia imediatamente uma caixa nova.

— Esta aqui é a correta.

O peregrino então transferia parte das sementes para a caixa menor.

As sementes que sobravam?

Bem…

Ficavam com o vendedor.

E assim, dia após dia, a mesma cena se repetia:

— Tá desatualizado!

O negócio prosperava.

O proprietário e o vendedor

O proprietário da pequena loja costumava aparecer apenas a cada quinze dias.

Certa vez, ao chegar, encontrou o vendedor novamente cercado por caixas pequenas.

Então perguntou:

— Por que você não vende as caixas maiores?

— Porque os clientes preferem as menores.

— Mas as caixas grandes são muito mais bonitas!

— Eu sei.

— Além de serem maiores, têm detalhes belíssimos. Poderiam até alegrar os vivos e, quem sabe, os mortos!

O vendedor deu de ombros.

— Os clientes preferem as pequenas.

O proprietário ficou pensativo.

— Então continue vendendo as pequenas.

E assim continuaram.

Um peregrino diferente

Certo dia, chegou ao templo uma pessoa bastante peculiar.

Era estranha?

Talvez.

Diferente?

Certamente.

Fez todo o ritual da oferenda e, quando chegou o momento de escolher o segredo que desejava conhecer, surpreendeu a todos:

— Hoje não quero saber segredo algum. Talvez eu volte outro dia.

E foi embora.

Passou algum tempo.

E, como costuma acontecer com tudo aquilo que está errado por muito tempo, um dia alguma coisa finalmente aconteceu.

O peregrino retornou ao templo.

Mas, dessa vez, encontrou o lugar completamente vazio.

Não havia peregrinos.

Não havia vendedores.

Não havia funcionários.

Aproximou-se do altar e levou um susto.

O altar principal estava partido ao meio.

As oferendas estavam espalhadas pelo chão.

Debaixo da grande árvore, havia um homem sentado, com as mãos sobre a cabeça, olhando para o chão.

O peregrino se aproximou.

— Amigo, sabe o que aconteceu aqui?

O homem levantou os olhos, abatido.

— Também não sei.

— Como não sabe?

— Sou o proprietário deste templo.

O peregrino ficou surpreso.

Proprietário?

Venho a este templo há tanto tempo e nunca sequer sabia que havia um proprietário.

O homem continuou:

— Depois que o altar quebrou, fui obrigado a fechar o templo. E então começaram os cancelamentos.

— Cancelamentos?

— Cancelaram as passagens de ônibus. Depois cancelaram as passagens de avião. Cancelaram as hospedagens. Alguns funcionários desapareceram. E até minha equipe de confiança foi embora.

— Para onde?

O proprietário suspirou.

— Foram prestar serviços para o Templo “Trabalhe em Paz”.

O peregrino ficou comovido.

Decidiu então utilizar o seu vale-segredo em favor do proprietário.

Talvez, afinal, aquele fosse o momento de descobrir o que realmente havia acontecido.

A revelação

O peregrino abriu o selo da oferenda.

Fechou os olhos.

Fez uma oração.

E pediu mentalmente:

“Gostaria de saber o que aconteceu neste templo.”

Nesse instante, uma luz surgiu diante dele.

Da luz apareceu uma serpente brilhante.

Ela ergueu a cabeça e começou a falar:

— Tudo aquilo que está oculto, um dia será revelado. Não existe segredo que possa permanecer escondido para sempre.

O peregrino permaneceu em silêncio.

A serpente continuou:

— Quer saber o que levou este templo à ruína?

— Sim.

— Então escute.

A serpente apontou para o templo destruído.

— Debaixo do altar principal, junto ao primeiro pilar à direita, existia um complexo sistema de engrenagens.

— Engrenagens?

— Sim. Elas mantinham todo o funcionamento do altar. Mas havia uma condição: o sistema precisava ser atualizado periodicamente.

O peregrino perguntou:

— E quem fazia isso?

A serpente respondeu:

— O papagaio.

O peregrino franziu a testa.

— O papagaio?

— Sim. Ele era o responsável pelas atualizações. Recebia sementes de girassol como pagamento e, para cumprir sua tarefa, precisava viajar até a região onde os girassóis floresciam.

A serpente fez uma pausa.

— Mas o papagaio estava cansado de viajar.

— E decidiu trabalhar menos?

— Exatamente.

— E o vendedor?

— Também queria trabalhar menos.

O peregrino começou a compreender.

A serpente continuou:

— Os dois perceberam que poderiam fazer um acordo.

— Que acordo?

— O papagaio deixou de atualizar as engrenagens. Em vez disso, passou a repetir uma única frase:

“Tá desatualizado… tá desatualizado… tá desatualizado…”

— E o vendedor?

— O vendedor passou a lhe entregar como pagamento as sementes que sobravam da troca das caixas grandes pelas pequenas.

O peregrino ficou em silêncio.

— Assim — continuou a serpente — o papagaio não precisava mais viajar para buscar suas sementes e não precisava mais se esforçar para atualizar as engrenagens.

— E o vendedor?

— Também não precisava aprender a fabricar as caixas maiores e mais bonitas.

A serpente olhou para os dois.

— Cada um encontrou uma maneira de trabalhar menos.

— E ninguém percebeu o problema?

— Perceberam. Mas preferiram acreditar que ele poderia ser resolvido depois.

A serpente então concluiu:

— Escolheram o caminho do menor esforço, mesmo sabendo que a estrutura precisava de manutenção.

As engrenagens continuaram envelhecendo.

Uma pequena peça começou a falhar.

Depois outra.

Depois outra.

Até que, finalmente…

CRAAASH!

O sistema parou.

E o altar veio abaixo.

A serpente revelou então:

— O prejuízo estimado é de quase quarenta milhões.

E desapareceu.

O preço da negligência

O proprietário arregalou os olhos.

— Quarenta milhões?!

Então começou a chorar.

— Mas… esse foi exatamente o valor que paguei por esse altar novinho!

O peregrino olhou para os destroços.

O proprietário permaneceu alguns instantes em silêncio.

Então, entre lágrimas, murmurou:

— Quem deveria atualizar… deixou desatualizado.

O peregrino não respondeu.

Apenas olhou para o templo destruído.

E percebeu que o maior problema nunca havia sido o papagaio.

Nem o vendedor.

Nem sequer as engrenagens.

O verdadeiro problema estava em uma pequena decisão repetida muitas vezes:

Fazer hoje apenas o suficiente para não precisar fazer amanhã aquilo que deveria ter sido feito hoje.

Moral do conto

O erro raramente destrói tudo de uma vez. Muitas vezes, ele começa pequeno, repete-se em silêncio e cresce enquanto todos fingem que está tudo bem.

Atualizar aquilo que precisa ser atualizado, corrigir aquilo que está errado e cumprir aquilo que nos foi confiado exige esforço. Mas o preço da negligência pode ser muito maior.

Quem escolhe sempre o caminho mais fácil pode descobrir, tarde demais, que estava apenas adiando o caminho mais difícil.

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